Que medo!
Plano de seqüência: a câmera segue Jhon Connor pelo campo de batalha fugindo das rajadas de metralhadoras desferidas por máquinas assassinas. Ele entra em um helicóptero e sai pilotando. A câmera dá voltas, entra, sai, vai e volta. Abatidos, eles (Connor e a câmera) vão caindo numa espiral violenta até se espatifarem no chão. Invertida, a imagem mostra o herói todo lascado entre as ferragens e o acompanha até lá fora, onde as bombas continuam a cair. Escondido atrás de uns destroços, ele pede resgate e relata o número de sobreviventes: um. Ele. Jhon Connor.
Um filme de resto banal e que trata o suculento tema da inteligência artificial de modo completamente quadrado e previsível, Terminator 4 poderia pelo menos transformar-se num exercício de estilo para o diretor McG, que continua aqui a franquia imaginada por James Cameron nos anos 80. Mas não é o que acontece, e o plano de seqüência que acompanha Connor pelos ares até chocar-se contra o chão é um dos poucos momentos de alta voltagem cinematográfica.
Apesar de todos os problemas do cinemão norte americano, deve-se admitir que em seus filmes de guerra e ação eles sofisticaram a noção de plano de seqüência, na qual a câmera segue o personagem ao longo da cena. E assim puderam seguir seus mocinhos e soldados por florestas e trincheiras, fugindo da artilharia inimiga ou de algum monstro assustador. Isso pendeu um pouco a balança para o outro lado, já que filmes de ação têm por definição uma edição rápida no estilo de vídeo clipe.
Um bom filme de ação deveria portanto se equilibrar entre a edição vertiginosa e eletrizantes planos de seqüência, no qual somos impelidos a acompanhar as peripécias do personagens colados nele, sentindo as balas zunirem ao lado do ouvido enquanto avançamos entre a lama e os cadáveres. O único problema é depois dar de cara com um Terminator, que não assusta ninguém. Aliás, que belo método para eliminar a humanidade: com tiros de metralhadoras desferidos por robôs vesgos.
Caçando oncinhas
Uma menina de treze anos viciada em crack tem que “ir para a pista” – prostituir-se – para conseguir amealhar alguns trocados. Ela deve cinco reais a Fulano, cinco a Cicrano e mais cinco a Beltrano. Sua mãe acompanha emocionada o depoimento. Diz que foi presa por furto tempos atrás e deixou a filha com uma certa tia, que também é viciada. Depois disso, a coisa degringolou. É uma das cenas mais fortes de Cinderelas, Lobos e Um Príncipe Encantado, documentário sobre o turismo sexual no nordeste.
Outra um pouco mais velha conta que ganhava duzentos reais por mês como auxiliar numa empresa. Agora ganha isso numa noite. E uma terceira conta que ganha na rua mil e duzentos reais por mês para sustentar dois filhos pequenos. Fosse doméstica trabalhando “em casa de brancos” ganharia trezentos e oitenta reais, que é o que se paga em Salvador.
A tese, apresentada com um didatismo quase professoral pelo diretor Joel Zito Araújo, é de que meninas pobres e negras do nordeste acabam sendo impelidas para a exploração sexual devido a um sistema perverso que as alija de qualquer migalha de cidadania. Seus corpos são seus únicos bens. Não fosse o tom academicista, Cinderela, Lobos e Um Príncipe Encantado teria tudo para ser um documentário explosivo. Como foi feito é apenas regular e reifica a falência de um estado inexistente e inoperante para grande parte da população brasileira, notadamente a negra, feminina e nordestina.
Quanto as “representações” e “imaginários” de que fala o diretor, a coisa não poderia ser mais escancarada: não estamos muito distantes do tempo em que índios tropicais eram levados para divertir a corte européia. O turista sexual vem em busca de sexo barato e diversão, pois a mulher européia é muito consciente dos seus direitos – ou seja, uma chata. Algumas são levadas para o exterior e trabalham em regime de escravidão e em cárcere privado. Outras, com mais sorte, acham o seu príncipe encantado a que o título faz referência – geralmente um europeu rico e velho que lhes tire da “vida fácil.” A maioria porém continua “indo para a pista” para ganhar as oncinhas – notas de cinqüenta – dos europeus. Ironias da colonização.
O alter ego do alter ego
O ator Leonardo Medeiros já foi o alter ego de Selton Mello no filme Feliz Natal, interpretando um cara soturno de meia idade que fala pouco, fuma muito, é atormentado pelo trauma de um acidente de automóvel e tem que agüentar a hipocrisia e a excentricidade de uma família disfuncional. Supõe-se que ele seja agora o alter ego de Chico Buarque, já que em Budapeste encarna José da Costa, o mais biográfico dos personagens buarqueanos: no primeiro romance o protagonista é um psicopata, no segundo um modelo fotográfico decadente e no último um velho centenário à beira da morte. Só em Budapeste Chico faz do seu personagem um artista. E não qualquer artista, mas um ghost writer que desgraçadamente não leva o crédito por nada o que escreve.
Medeiros interpreta esse intelectual frustrado com a mesma cara de tédio, transmitindo o mesmo vazio existencial, fumando com a mesma volúpia os seus cigarros (cadê os meus?) igualzinho fazia em Feliz Natal. Mas isso em nada diminui o personagem. Medeiros vai achando o tom em que encarna um sujeito pacato e arredio e o público vai se identificando com ele. Em sua atuação não há pirotecnia, apenas a intuição de um vasto turbilhão interior. José da Costa, o ghost writer, se limita a escrever compulsivamente e a copular sem vontade com sua mulher, a fútil, bronzeada e curvilínea repórter interpretada por Giovana Antoneli, enquanto recita mentalmente versos em húngaro, a “única língua que o diabo respeita.”
O filme decola lá pelos quarenta minutos, quando Costa conhece Kriska (Gabriela Hámori) em Busapeste e vai sorvendo dela o húngaro, catando e juntando os pedaços desconexos de coisas que ela recita, literalmente se embebedando com o idioma. A partir daí entra numa espiral de loucura na qual Costa é deslocado do seu ego até se perder num oceano de falta de referências. É ele quem escreve os livros, é escrito por eles? Chico Buarque faz uma ponta aos quarenta e dois do segundo tempo pedindo um autógrafo ao ghost writer que ironicamente não escreveu o único livro pelo qual foi laureado e a coisa toda termina numa overdose de metalinguagem.
Há uma moral na história? Naturalmente que não. Mas Budapeste, livro e filme, acaba por tratar de um assunto que deve ocupar a massa cinzenta de Chico: a autoria. Ela existe? É uma ficção? Na sua carreira de compositor, quantos refrões ele não “roubou” de transeuntes assobiando alegremente na rua? Quantas parcerias? Quantas canções encomendadas? Quanta falta de inspiração? Quanto plágio dissimulado? Pois de resto ele fazia o que José da Costa tenta fazer com os seus clientes: transformar vidas banais e desinteressantes em peças épicas que inspirem ou emocionem os outros. Coisa de artista.
Com o filme queimado
A história também é feita de vácuos, lacunas, silêncios, coisas mal contadas e mal entendidas. Há casos que ficam guardados no armário pegando poeira por décadas e se não fosse o ímpeto de alguém para revolvê-los, permaneceriam lá por outras décadas até se diluir completamente no oceano do esquecimento. Deve ter sido esse ímpeto por passar a história a limpo que motivou os diretores Cláudio Manoel, Calvito Leal e Micael Langer a contar a história de Wilson Simonal no excelente documentário Ninguém Sabe o Duro que Dei.
Talvez o maior cantor e brasileiro na década de sessenta (regia ginásios inteiros e fazia duetos com estrelas do jazz norte-americanas), Simonal cantava um Brasil grande, feliz e tropical e como não fazia músicas de protesto contra a ditadura passou a ser considerado “de direita.” Ingênuo que era, não fazia questão de desfazer o mal entendido e ainda viajou com a seleção para a copa de setenta como entreteiner – na época, o futebol era arma de propaganda do regime. Intelectuais de esquerda não ficaram muito satisfeitos com o sucesso do negão e quando houve um quiprocó entre o cantor e o seu contador foi a deixa para ele ser acusado de informante do DOPS e cair no ostracismo até o fim da vida. É essa a ferida que o filme veio cutucar e explicar.
Simonal era garoto propaganda da Shell e recebia da multinacional uma bolada todo mês. O contrato foi rompido, mas ele não ficou sabendo. Quando foi olhar suas receitas, teve certeza que estava sendo roubado. Mandou dois ou três brucutus darem uma coça no sujeito mas, e aí está toda a origem do mal entendido, esses brucutus eram funcionários do DOPS e levaram o coitado para os porões do órgão onde foi torturado, eletrocutado e forçado a confessar o roubo que não cometeu. Simonal, que só queria dar um susto no cara, ficou sendo mandante do crime. Quando o caso estourou, foi definitivamente julgado e condenado pela esquerda raivosa e pelo clima de radicalismo político que vigorava. O Pasquim fez tirinhas acusando-o de ser dedo duro e jogou-o na “lata de lixo da história” nas palavras do próprio Jaguar.
Houve então um silêncio deliberado e Simonal foi afastado da cena cultural como um leproso. Entregue ao alcoolismo, passou em branco os anos setenta e oitenta. No fim da vida voltou a aparecer em programas de televisão carregando pilhas de documentos que provavam que não era nem nunca tinha sido agente do DOPS ou de qualquer órgão de repressão da ditadura. O outrora maior artista do Brasil se convertera num velho em busca de redenção. Essa é a parte melancólica do filme, que conta com depoimentos emocionados dos filhos, da ex-mulher e do próprio contador, que foi achado pela produção e que até então nunca tinha contado a sua versão da história. Mas é também um saudável exercício de autocrítica de todos que de uma forma ou de outra foram coniventes com a execração do artista. E mostra como julgamentos precipitados podem aniquilar a vida de um cara. Ou até mesmo dO Cara.
A super potência do som
José Miguel Wisnick arrisca uma tese grandiloquente no documentário Palavra (En)cantada, de Helena Solberg: a primeira grande comunhão entre música e poesia foi com os aedos da Grécia antiga que evocavam as epopéias homéricas com suas liras e deram ao mundo a polpa concentrada do helenismo. A segunda foi durante a Idade Média, quando trovadores e menestréis forjaram uma cultura híbrida de bárbaros e latinos levando de um lado para o outro com suas proto-violas notícias sobre guerras e narrando os feitos de cavaleiros. A terceira e definitiva comunhão com música e letra ocorreu no Brasil do século XX: esse ponto de inflexão étnica e cultural pelo qual passou a música nacional no último século seria o grande legado do Brasil para a posteridade. Parece ousado? E é.
Historicamente um país periférico e exportador de matéria prima (petróleo, açúcar, soja, café, minério, borracha) o Brasil tem na música o seu grande produto de valor agregado, o que valeria a criação de uma multinacional específica para o setor: uma MúsicoBras ou uma Vale o Rio Música. A inserção brasileira no mundo seria principalmente cultural, algo que os EUA já aprenderam há tempos. Criancinhas da África e da Indonésia aprenderiam a cantar Chico, Caetano e Caymi. Em uma geração, já teríamos lançado tentáculos e todos os continentes e o português seria a segunda ou terceira língua franca mais falada no mundo.
Com uma produção regular na literatura e o no cinema, com alguns espasmos de genialidade (Rosa, Meireles) o país é um celeiro de músicos sem igual. Respeitada no mundo inteiro, a música brasileira nunca deixa de provocar estupefação onde quer que vá pela sua variedade rítmica. Não espanta que um compositor como Tom Zé (impagável no filme, aliás como sempre) seja tão admirado no exterior. Reza a lenda que quando David Byrne do Talking Heads ouviu uma música do baiano louco pela primeira vez disse sem pestanejar para seu produtor: “Me compra uma passagem pro Brasil agora, preciso conhecer esse cara!”
O documentário faz o dever de casa, mas peca pela imensa miríade de personagens que são citados. Minutos depois de vermos Tom Jobim criando a bossa nova com Vinícius, somos bombardeados por Marina Lima cantando Eu Vi o Rei Chegar, provavelmente a pior música já escrita no planeta. Se há pecadilhos como o gosto particular da diretora, o filme é bem resolvido e editado mesmo se considerando a amplitude do tema. Só faltou tocar Raul.
Será que ele é?
J.J Abrahan é hoje um nomes mais super estimados de Holywood e considerado “o cara da ficção científica.” Ele despontou com a série Lost, que teve uma primeira temporada intrigante mas depois caiu na mesmice para segurar a audiência, fez o dever de casa com Missão Impossível 3 e acertou com Cloverfiel, não tanto pela idéia (monstro aterrorizante destrói nova york) mas pelo formato em que foi filmado, como se câmeras de vídeo amadoras captassem tudo.
O talento para encontrar os produtores certos e levantar mundos e fundos ele definitivamente tem, como mostra o recém lançado Star Trek, mas a inquietação continua: por que cargas dágua ele é considerado pela grande impressa “o cara da ficção centífica” quando o que faz é simplesmente se apropriar do gênero para fazer filmes de ação, completamente dissociado de suas potencialidades narrativas e até mesmo filosóficas?
Desde que Kubrick bolou o “corte de um milhão de anos” e introduziu no cinema questões como “que porra é o universo?”, “qual o destino da espécie humana?” e “quais os limites da nossa (in)compreensão?” o gênero se revelou um terreno fértil para a especulação metafísica (na mesma época, Tzarowsky filmava a incomunicabilidade humana no espaço que oprimia cosmonautas assolados pela perda da identidade na era da tecno cultura( ops, piada interna)).
A premissa: vilão galático peita a federação estelar e um jovem inquieto e revoltado (capitão Kirk) vai aprender a virar homem e ter responsabilidades de gente grande ao enfrentá-lo. Nesse interstício ele conhece seu arqui rival e futuro amigo do peito (Spock). Fora uma apropriação (muito mal explicada) da viagem no tempo, nenhum dos grandes temas da ficção científica (a interseção homem-máquina, as conseqüências políticas e sociais do contato extra terrestre, etc) é explorado. Seguindo uma tendência cada vez mais comum em Holywood, é um filme quase exclusivamente voltado para o público adolescente, o que levaria a supor que oitenta por cento das pessoas que vão ao cinema tem entre 13 e 17 anos. Ou que é essa a idade mental de muitos dos mais badalados diretores da atualidade.
O pulha mais poderoso do mundo
Poucos sujeitos foram tão vilipendiados e ridicularizados quanto o ex presidente dos EUA George Bush, que volta e meia aparecia cometendo uma gafe ou falando algo esdrúxulo em programas de humor como o de David Letterman, que inclusive tinha um quadro específico para isso. Inesquecível também a caricatura patética que Michael Moore fez dele em Farenheit 11/09, narrando em off o que deveria passar pela cabeça do presidente quando recebeu a notícia de que os EUA estavam sendo atacados enquanto lia um livro infantil para crianças numa escola. Desenhos, esquetes, séries, piadas, praticamente toda a cultura pop já se enfastiou denunciando a ignorância do texano bundão e puritano que era manipulado pelos seus assessores como uma marionete. Faltava um “filme sério” sobre o assunto e ele já estreou menos de três meses depois da posse de Obama, o novo e descolado presidente.
É W, de Oliver Stone, que tem no currículo uma longa série de filmes políticos, alguns bons, outros nem tanto. Nele, o diretor retrata Bush como um jovem alcoólatra sem nenhuma verdadeira vocação que, depois de tentar a sorte com prospecção de petróleo e outros investimentos da família, resolve entrar para a política. Após governar o Texas, por algum motivo insondável se elege duas vezes presidente e invade o Iraque sem o aval da ONU, confiando cegamente nas raposas políticas que sopravam vilanias no seu ouvido.
Sofrendo até o fim certo complexo de inferioridade por não achar-se tão bom quanto seu irmão ou seu pai, o George renascido (virou crente fervoroso depois que largou a cachaça) se sacrifica pelos EUA e crê firmemente nos seus propósitos cristãos e nacionalistas, alheio qualquer complexidade diplomática. É de estarrecer que um homem tão raso intelectualmente tenha governado a maior potência militar do mundo por oito anos, e mais aterrador ainda o fato de uma certa ultra direita republicana se proponha a fazer um certo revisionismo histórico ao sugerir que a era Bush não foi tão ruim quanto parece. Execrar Bush é bater em bêbado, mas há bêbados que merecem sim uma boa coça.
Na base da rapadura
Não vou assistir Garapa, o novo documentário de José Padilha que trata da fome nos rincões mais miseráveis do Brasil. Sem cores e sem trilha sonora, ao que parece o filme se limita a mostrar o cotidiano de famílias que, sem ter o que comer, se alimentam de uma mistura de água com açúcar ou rapadura – a tal Garapa. Mesmo sem assistir, admito que esse não-evento fílmico, esse vácuo deliberado, é muito mais relevante do que muita comediazinha banal que se faz por aí.
Percorrendo o itinerário de lançamento, o diretor foi até o coração da Big Apple apresentar aos “caras cosmopolitas” (GNT) o seu filme, o que muito os impressionou, salvo o execrável Diogo Mainardi que dizia coisas como “a fome no Brasil é uma invenção das esquerdas, na verdade pobre no Brasil é tudo gordo, nosso problema é a obesidade, quero ver você fazer um filme sobre o mensalão” como o adulto infantilizado que se recusa a encarar a realidade escancarada na sua frente por mero capricho político.
Com a paciência de um monge budista Padilha tentava explicar que a fome é um problema crônico não só no Brasil como no mundo inteiro, relatando dados da ONU de que uma em cada seis pessoas no planeta sofre de deficiência alimentar. Seu mérito é “botar o assunto pra jogo”, como já fez no documentário sobre o massacre do ônibus 174 e no polêmico sucesso Tropa de Elite – aí maldosamente botando o dedo na cara do playboy que fuma maconha, como se ele fosse responsável pelas mazelas do país e não houvesse nada de errado com a legislação puritana que versa sobre o tema. Fora o moralismo rasteiro, um baita filme, não por acaso fartamente premiado.
E aí está ele novamente “botando pra jogo” um assunto que provocaria até mesmo tédio em círculos menos escrupulosos, como se esses miseráveis ficassem passando fome só para futucar o complexo de culpa da classe média. O fato é que eles estão lá se alimentando de açúcar e com a pele grudada nas costelas. Definitivamente, não é um filme – pipoca.